
Sobre um Suéter
Lembro.
Ela começou a tricotar-me um suéter. Era azul a linha dele, melhor, um lindo Azul - Royal (e ai de quem falasse que era apenas um azul). Escolheu esta cor, imagino, pela minha boba frase - esta é a "minha cor". Criticou-me a principio e riu de meu jeito bobo de falar. E eu ri com ela desse meu jeito bobo de entender as coisas. Compreendi.
Um lindo suéter não se tricota de um dia para o outro, ou semanas, acho que meses caberiam, mas na verdade quero que sejam anos...
Assisti com calma e paciência a escolha da linha, dos pauzinhos, do jeito, do nó e do tipo de costura. Era uma costura arrojada, pensada e até bem planejada, afinal ela sabia onde queria chegar. E eu apenas assistia, gostoso, deitado e sempre esperançoso.
Ouvia você cantando Joni Mitchell, e nada fazia você sair de seu ritmo lindo de feitio do nosso belo suéter.
Um dia, depois de muitos dias, pensei em como sairia de casa num tempo de frio e chuva com meu suéter pronto, ele ainda não estava finalizado, mas já pensava em tal possibilidade, então perguntei a ela, como podia sair ao tempo, com chuva e vento?
Não foi uma pergunta bem planejada e nem feliz respondida - Você sairá neste tempo? Arriscará meu presente a tal condição? E me deixará aqui sozinha? Não compreendi. Devia. E fiquei em silencio na beira da cama.
Lá pensei no começo, quando nos conhecemos, olhamos e nos encontramos. E lá fiquei pensando, e lá perdi meu sono, e lá vi você adormecendo. Não devia.
Acordou.
Acordei com disposição, pronto, parecendo feliz. Mas ela, ela estava diferente, em silêncio e fora de seu ritmo. Tudo parecia fora de eixo. Depois de poucas horas sem palavras, decidida ela saiu sem me falar tchau. Não tive vontade de me mexer. Devia. Mas não tive.
Foi a primeira vez que vi ela fugir do nosso lugar. E o suéter... Ficou dias sem ser posto em seu colo pra ser costurado. Fiquei com frio pela primeira vez. Senti a falta dela por muita vezes.
Adormecido em nossa cama, de súbito salto, vejo ela voltando a sua cadeira, com um sorriso lindo e gostoso acariciando o suéter azul-royal. E para minha imensa alegria ela busca e encontra, com cuidado, o novelo, os pauzinhos e o ritmo. Notei que já não era o mesmo, tão intenso, mas era cuidadoso e carinhoso do mesmo jeito. Fiquei com medo de perdê-la. Notei que o suéter tinha seu primeiro remendo feito. Dormimos. Juntos.
Acordo e saio de nosso lugar, dar uma olhada ao redor, notar o que mudou, mas a vista era branca, o céu era cinza e plantas estavam secas. O inverno estava chegando.
Frio, esta era sensação que tinha quando ela estava irritada por ter errado alguma linha do suéter por minha causa. Fiz ela quebrar a linha, fiz ela quebrar a rotina, fiz ela quebrar o ritmo. Fiz tudo como um bobo. Em silencio na beira da cama fiquei.
Escuro estava àquela noite. Deitei sem resolver o que podia. Eu devia ter falado mais, ter dito mais, ter gritado, pra no fim ser beijado. Mas estávamos distantes e assim ficamos. Adormecemos sem nos tocar.
Adormecido em minha cama, de súbito salto, olho para a janela aberta, venta muito, o céu continua cinza e vento muito gelado, me levanto e vou até a janela e a fecho, volto meu olhar para a cama. Ela não estava mais lá. Em nenhum lugar. Procurei em tudo, e com os olhos cheios d´agua (a quanto tempo não sentia o inchaço e textura de uma gota de lágrima) olhei para a cadeira. Do novelo apenas sobraram restos de linhas, os pauzinhos estavam cuidadosamente ao lado da cadeira e o suéter estava lá, finalizado. Eu o vesti. Chorei. Senti o seu perfume nele. Como não provaria ao seu olhar? Nem sei se ficou bom ao teu gosto. Me olhei no espelho. As músicas que você cantava não saíram de minha cabeça. Fui até o quarto. E sentei na beira da cama. E em silencio fiquei.
Lembro.
3 | Pessoas clicaram aqui e disseram o que sentiram.:
Escrita prazeroza neste blog, visões assim demonstram valor ao indivíduo que visitar aqui .....
Realiza muito mais de este blog, a todos os teus leitores.
Obrigado pessoa anônima!
Fico feliz por ter passado por aqui e dizer o que sentiu.
Em um ano te conheci e em outro aprendi a tricotar. Mais alguns e eu aprendo a fazer um suéter. Mesmo que indo e voltando, errando e remendando, saindo do ritmo e descobrindo um novo.
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