Quarta-feira, Outubro 6

Parte-Ida 1.



Sobre um Suéter

Lembro.

Ela começou a tricotar-me um suéter. Era azul a linha dele, melhor, um lindo Azul - Royal (e ai de quem falasse que era apenas um azul). Escolheu esta cor, imagino, pela minha boba frase - esta é a "minha cor". Criticou-me a principio e riu de meu jeito bobo de falar. E eu ri com ela desse meu jeito bobo de entender as coisas. Compreendi.

Um lindo suéter não se tricota de um dia para o outro, ou semanas, acho que meses caberiam, mas na verdade quero que sejam anos...

Assisti com calma e paciência a escolha da linha, dos pauzinhos, do jeito, do nó e do tipo de costura. Era uma costura arrojada, pensada e até bem planejada, afinal ela sabia onde queria chegar. E eu apenas assistia, gostoso, deitado e sempre esperançoso.

Ouvia você cantando Joni Mitchell, e nada fazia você sair de seu ritmo lindo de feitio do nosso belo suéter.

Um dia, depois de muitos dias, pensei em como sairia de casa num tempo de frio e chuva com meu suéter pronto, ele ainda não estava finalizado, mas já pensava em tal possibilidade, então perguntei a ela, como podia sair ao tempo, com chuva e vento?

Não foi uma pergunta bem planejada e nem feliz respondida - Você sairá neste tempo? Arriscará meu presente a tal condição? E me deixará aqui sozinha? Não compreendi. Devia. E fiquei em silencio na beira da cama.

Lá pensei no começo, quando nos conhecemos, olhamos e nos encontramos. E lá fiquei pensando, e lá perdi meu sono, e lá vi você adormecendo. Não devia.

Acordou.

Acordei com disposição, pronto, parecendo feliz. Mas ela, ela estava diferente, em silêncio e fora de seu ritmo. Tudo parecia fora de eixo. Depois de poucas horas sem palavras, decidida ela saiu sem me falar tchau. Não tive vontade de me mexer. Devia. Mas não tive.

Foi a primeira vez que vi ela fugir do nosso lugar. E o suéter... Ficou dias sem ser posto em seu colo pra ser costurado. Fiquei com frio pela primeira vez. Senti a falta dela por muita vezes.

Adormecido em nossa cama, de súbito salto, vejo ela voltando a sua cadeira, com um sorriso lindo e gostoso acariciando o suéter azul-royal. E para minha imensa alegria ela busca e encontra, com cuidado, o novelo, os pauzinhos e o ritmo. Notei que já não era o mesmo, tão intenso, mas era cuidadoso e carinhoso do mesmo jeito. Fiquei com medo de perdê-la. Notei que o suéter tinha seu primeiro remendo feito. Dormimos. Juntos.

Acordo e saio de nosso lugar, dar uma olhada ao redor, notar o que mudou, mas a vista era branca, o céu era cinza e plantas estavam secas. O inverno estava chegando.

Frio, esta era sensação que tinha quando ela estava irritada por ter errado alguma linha do suéter por minha causa. Fiz ela quebrar a linha, fiz ela quebrar a rotina, fiz ela quebrar o ritmo. Fiz tudo como um bobo. Em silencio na beira da cama fiquei.

Escuro estava àquela noite. Deitei sem resolver o que podia. Eu devia ter falado mais, ter dito mais, ter gritado, pra no fim ser beijado. Mas estávamos distantes e assim ficamos. Adormecemos sem nos tocar.

Adormecido em minha cama, de súbito salto, olho para a janela aberta, venta muito, o céu continua cinza e vento muito gelado, me levanto e vou até a janela e a fecho, volto meu olhar para a cama. Ela não estava mais lá. Em nenhum lugar. Procurei em tudo, e com os olhos cheios d´agua (a quanto tempo não sentia o inchaço e textura de uma gota de lágrima) olhei para a cadeira. Do novelo apenas sobraram restos de linhas, os pauzinhos estavam cuidadosamente ao lado da cadeira e o suéter estava lá, finalizado. Eu o vesti. Chorei. Senti o seu perfume nele. Como não provaria ao seu olhar? Nem sei se ficou bom ao teu gosto. Me olhei no espelho. As músicas que você cantava não saíram de minha cabeça. Fui até o quarto. E sentei na beira da cama. E em silencio fiquei.
Lembro.



Sexta-feira, Abril 2

Jogo.



Concreto & Conclusivo.


Resolvi escrever coisas concretas.
Para continuar essa jornada de caracteres, deixo claro antes que esses textos abaixo e acima não tem nenhum:
Canto
Rima
Ou ligação com algo comum, ou cotidiano.
Se está procurando isso por aqui então nem comece a ler, mas não desista
Com certeza achará o que procura em algum texto conhecido ou bem publicado.
Essas escreventuras, são coisas jogadas, palavras feitas a brigas com minha vista, algumas nem existem
Invento para saciar o "não ter", para conseguir retocar o figurativo das imagens.
Os hífens são como minha cabeça, ligam palavras para não fugirem do meu pensamento
Sinto necessidade deles, os hífens, as vezes até fome deles, até que ultimamente tenho os deixado em branco.
O concreto
Pode até ser explicativo, ou um alerta, ou aviso, um "Favor Não Insista", o que "vc" quiser.

Parágrafo, desce.

Sinto falta do toque, por isso endureço essas palavras.
A auto-conclusão e a redundância se metem muito na minha vida, queria deixá-las de lado
Ok, Pula.

Estou endurecendo tudo.
Isso não é ruim, temos que ter essa ação!
Um soco no estomago, um tapa na cara, um chute na bunda bem dado
Quem não precisa disso para acordar ?
Sim, totalmente figurativo, não se julgue ruim por ter pensado o real.
Realidade
Eu gosto dela, mas as vezes ...
Reticências
Eu gosto delas, mas as vezes.
Não é concreto.

Temo por dissecar tudo.

Ah! Vamos lá, MEDO
Aprendi que posso (quase) controla-lo, anseio e tudo que está atrelado a ele
O medo não existe !
Por isso só temo, viram, temo
Dissecar, virar pó.

Já virei concreto um dia.
Parar de sentir, é, uma sensação louca, adversa, sem sentido pra mim
Mas senti, e foi, ou está sendo, uma aversão de sentidos
Sou confuso
Sincero como/quando não se pode ser
Falo pouco, sou o necessario sincero pouco e observo muito para, talvez, navegar em paz
A vida é um mar! (ah, Eu divagando)
Ok, Pula

Hey You! (Um grito com algum sentido, procure)
O que voce está pensando agora ?
É a pergunta que mantem meu dia de pé, me deixa alerta, pronto e disposto
Se pudesse perguntaria para todos em que me olham no olho pela rua, são poucos os dispostos
São poucos os dispostos mesmo !
O que responderiam eles ?
...
Uma Utopia me ronda a cabeça, ela me desnorteava muito bem, mas agora se foi.
É uma perda muito forte, atroz e voraz
Lembro das 2h e meia numa cadeira ouvindo minha ideologia dúbia ruir, ela não estava tão errada assim
Sou um "Operário em Construção" ao mundo atual
Mais uma mão posta ao forte ideal-pensado politico, privado, capitalista, mundano, povoado, "farofado".
Argh! E eu odeio comida seca !
Mas a garganta está por horas-agora.
Acho que é por que está calor (eu me enganando)

Longo demais, afirmação demais, palavras demais.
Por hora-agora-seca deixo o que tinha que deixar.
Sou o que está por ai, me ache e poderemos nos "dopar confortavelmente"
Já aviso: dopar de palavras, sentidos, tatos, dizeres e afins.
Estranho.
Pois é.

Escrito entre Fevereiro e Março.

no Player
Broken Social Scene - Backyards


Sexta-feira, Março 12

Angustia.



Rubro-Metal


E ele tomou um tiro
Certeiro-olho-mira
Foi pela culatra a fina raspa de metal
Rubrou o chão com carne viva
Deixou pra traz uma vida-minha
Pensou com olhos negros sem roto
Espinhos ... ah! isso são palavras de outro.
Deixe-me-ei de recomeçar ...

E ele se atirou no tiro
Deixou mirar-acertar-olho
Cuitelou o braço e tentou chegar suave ao chão
Foi em pequenos fragmentos de segundo que foi
Pensou, no que seria dali pra frente
Acho que imaginou o céu cinza e a posta-frente vermelha
Diante do seu proprio corpo debaixo da terra
Passou pela sua cabeça, literalmente
O Frio, passou pela sua cabeça.

2/4 do caminho ... de pé-diagonal
o tempo pára diante de pensamentos alheios
Não passa como a gente quer que ele passe sobre nós
Que toque!
O tempo sabe tocar, sabe sexualizar a pulpitação do latente
Faz chover-choro-mim
Trovão Imaginario
O tempo escolhe quem ele quer levar. E trazer.

3/4 do caminho ... teria cumprido o combinado
Está chegando ao chão
Não queria estar, mas escolhe o chão
O chão
Ele consegue abraçar melhor do que qualquer mulher
Caio para o abraço de meu chão
Calcanhares sobre o ter
Discernido
Estou em queda

4/4 do caminho, não comentei, são 6/6
Preferi alongar o fim
Ajustar a penseira
Arrume seu relogio, pois ele é relativo ao agora
Passei do estado de controle, pois agora dedilho o que quero com tempo.
Importa-se ?
Chegar ao fim de algo é complicado ...
Quero que ele demore ...
Incrivel o quão rapido está caindo.
Até tinha me esquecido que tomei um tiro
Ai! Ele doi

5/6 do caminho-ido
... momento de vazio.
Isso não é uma desistencia, nem um conformismo
Eu nem sei o porque que eu tomei um tiro !
Lembro de palavras-raiva que escrevi
Parecem com o canto-queda que agora sopro
Jorro (se você imaginou sangue, não é)
Federico Garcia Lorca
Invento um poeta não-são
Indago o são (com sua licença)
Dou nó sobre o não e continuo ...

6/6 fim-bom
...Lembro, de épocas doces, com nuvens sobre elas
Se fosse velho acho que até seriam algodão-vontade-de-doce
Suor-lava-alma
Paciência
Ele logo chega ...
...Os primeiros fios de cabelo estão se ligando ao soalho
A roupa suada do dia sente o vapor surrado do chão
Os musculos se desprendem do osso
A insustenavel leveza do ser ... se esvai
E a lombar, que nunca sentirá o tato final com o tapete de concreto, curva
Possivelmente por ser "torta"
E é triste saber que não estará por completo ligado à terra
...
Contemplo-completo
Divago sobre o corpo estirado, expirado
Completa-se o som do tiro, junto com o tempo, junto com o corpo
Ele, vê-olha para cima, mas, não tinha desejado isso
No ultimo ensejo, O vento cumpriu seu ultimo desejo ...
Tocou-lhe com o tempo-momento que lhe foi dado
E manteve, silenciosamente, sua face-olho-labios voltado para a aspereza-fria do chão de alfalto-negro

No Player
The Cinematic Orchestra - Breathe


Quinta-feira, Fevereiro 11



Pêra.

Meu Peito está cheio-vicer-á
Vita-cheiro-boca
Perco o dicernimento-mas-feliz
Estou dis-creto
Ao contrario-reverso-con-creto
Sem-creto
Fim-de-pedra estou
Fim-alerdeada
A-bandeira vermelha volta a astear-se
Tremula-grita-viva !
É bom sentir-voar
É bom não-saber-se-está-lá
É bom frio-no-verão
É bom ter-ido-sido-e ... será ?
Com-sumo-tocado-bebido ... pouco-sentido
Inquietude Plena!
Por ter pouco sentido-tocado
Por ter sumo-com-bebido-fugido
Lí-bido
Inquietude Flerta!
Ai-de-braços
Abraço-fogo
Abraço-encontro
Sabe-se, claros?
Não sabe-se-nada
É
se-nada
Chamo por peito-cheiro-cheio
Nem guardei o cheiro-cheio
Foi rapido-de-um
Ah!
Mas a incrivel-trans-forma-mento de pensa-ção
Está ai
livre-lúcida-sucinta
Insisto-és
Linda.
ChuvAvermelha.


No Player:
Rolling Stones - Heaven


Segunda-feira, Dezembro 7

Choro.


Porta

Um dia abri uma porta-horta-rarefeita
Luz-de-fel
Mel de ver-sentir

Senti.

Bati.

A porta na face-linda-de-flor
Com minha Dor-ardida-chorosa

Sinto-me Rosa
Com pétalas-ao-ar-mar
Mar-vida-ida-finda

A porta-horta
Ao deixar a luz-alegria apagada-está
Sinto-me Pedra à ficar-estar-lá

Sinto-me Pedra
Com o mar-vida em meus pés-és

Sinto-me Pedra
Com o mar-vida me disfazendo-ao-pó-cheiro-chuva

Sinto a pele-linda-de-flor lá.

Sinto-me Pedra a esfarelar-se-ao-ser-desaparecer

Do lado de dentro da Porta

Uma pedra agora está.

Lá-está.
No Player:
Yes - And You And I